E a distância daquelas almas e de seus corpos foi separada
por apenas uma parede de concreto. O silêncio entre os dois foi o que
concretizou o vão do amor. Ao longe se escutava os barulhinhos da noite, agora,
fria e densa e intensa. Enfraquecido pelo ar gélido o sangue ainda quente
percorria devagar e manso o corpo dos amantes, isso ainda era a espera... Ela
queria uma resposta aos seus anseios, queria sentir aquelas mãos outra vez
percorrendo seus seios, o peso do corpo do amante sobre o seu. Ah! A espera por
um sinal, qualquer sinal para que pudesse se jogar novamente aos seus pés,
inocente e ardente. O tempo se torna inimigo de quem espreita o passar das
horas, o tempo aprisiona aquele que busca algo e o tempo foi seguindo... A
imensidão foi crescendo num sentido diferente, encantos diferentes,
desencontros permanentes. Ela sabia exatamente o que poderia fazer com que sua
vida tivesse um sentido porque ser amada e estar apaixonada era a única solução
para poder reencontrar os pedaços que a vida levou do seu caminho. Pedaços de
tudo, pedaços de outras vidas, pedaços de risos, pedaços de alegria. Ela era o
amor em si, precisava disso para se sentir viva. Ele continuava do outro lado
da parede, mudo, sem expressão buscando algo que não sabia bem o que era. Ele
não era o amor em si e se sentia perdido porque não entendia o que ela queria.
Então, fixou o silêncio na relação. Esperou por ela noites e noites e não sabia
por que ela não vinha. Assim, eles permaneceram noites e noites afins. Noites
frias outras densas e mais intensas, a parede, o sangue quente, a espera por
novos encantos correspondidos. E o dia traz de volta a realidade da vida tão
vazia por faltar o encontro dos amantes durante a noite fria.